Parodiando Mário de Andrade, somos todos turistas aprendizes

Por Luciano Martins Costa, jornalista e escritor, consultor em estratégia e sustentabilidade (publicado no jornal Brasil Econômico) 

Para quem busca tranquilidade e leveza de espírito, poucas oportunidades se comparam à sensação de sentar-se à margem do maior rio de água potável do mundo, ou de ler um trecho de Guimarães Rosa no Jalapão e ouvir de um guia local, com sotaque de literatura, o que são as veredas dos grandes sertões.

Mas o turismo ecológico, ou turismo sustentável, é bem mais do que o privilégio de estar em lugares onde a natureza ainda não foi radicalmente transformada pela presença humana, ou escalar montanhas em alturas que a maioria dos seres humanos não sonha alcançar, ou ainda navegar por corredeiras num caiaque de plástico. O turismo dos tempos responsáveis pode ser feito na floresta virgem ou numa metrópole. A grande regra é tirar apenas as imagens que podem ser levadas na câmera, deixar no chão somente os rastros, evitar ou compensar o desgaste do patrimônio ao qual se teve acesso e, namedida do possível, contribuir para a manutenção dos sistemas sociais, econômicos e culturais que foram encontrados ao chegar.

 Esses valores já estavam presentes nos relatos de Mário de Andrade, desde sua primeira viagemà Amazônia como “turista aprendiz”, em 1927. Dessas viagens, ele deixou mais de 1,5 mil fotografias, consideradas obras de arte. Não por acaso, uma das mais interessantes imagens feitas pelo poeta e escritor paulista em suas viagens pelo Brasil, que pode ser vista no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, mostra, no alto, um trecho da floresta amazônica, refletido no rio Madeira, onde também se pode observar, minúscula, a sombra do fotógrafo. A presença do turista, ali, é apenas uma sombra na paisagem líquida.

Um estudo da professora Telê Ancona Lopez sobre Mário de Andrade fotógrafo, publicado em 2005, tenciona falar de arte mas acaba revelando um dos sentidos mais profundos de fazer turismo sustentável: o turista ideal seria um visitante quase invisível.

A recente valorização dos cenários naturais, consequência das maiores preocupações com o ambiente, produz mudanças na administração do turismo. Ao lado das medidas preventivas contra os danos ao patrimônio, crescem as iniciativas pela geração de riqueza nas comunidades visitadas, coma organização de cooperativas e grupos de produtores artesanais, culinária e outras fontes de renda que não agridem o ambiente nem descaracterizam os padrões culturais.

No outro lado dessa indústria, porém, ainda sobrevivem práticas predatórias como o turismo sexual, muitas vezes estimulado por empresas e produtores de eventos. Essa prática equivale ao turismo da pedra lascada, ou ao hábito de arrancar lascas, mudas, flores e “lembranças” de viagem. O turismo sustentável exige planejamento. Além de prover transporte, hospedagem e alimentação, o visitante busca se informar sobre os produtos a adquirir nas viagens, cujos resultados possam contribuir para a renda e para a valorização da cultura local. Talvez seja de Mário de Andrade a melhor definição do turista ideal: aquele que sai de sua casa para ser transformado pelos objetos, cenários e pessoas que irá visitar. Nesse sentido, somos todos ainda meros aprendizes.

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AVISO: O programa Revista 100,9 só voltará a ser apresentado a partir do dia 5 de fevereiro. Até lá, a equipe do Cultura Ambiental está preparando algumas novidades para você! Enquanto isso, você pode ouvir programas antigos e ler notícias e curiosidades sobre meio ambiente aqui no blog. Um grande abraço!

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