Lixão da Estrutural – Brasília

O Correio Braziliense de hoje também publicou uma matéria sobre o lixão da Estrutural, local mais que condenado por quem atua na defesa do meio ambiente. São vários os motivos: descarte errado, insalubridade, degradações ambientais, risco de vida para os catadores, entre outros vários erros. Veja na matéria o drama diário que os catadores vivem ali naquele local. O fechamento, acreditamos e esperamos, está próximo. Essa é uma novela que está em cartaz há muitos anos. Muitas mortes já ocorreram no local. O novo aterro ainda não está pronto. Mas enquanto a desativação não acontece, o que o governo faz para minimizar os impactos sociais e ambientais?

lixao-comunidade

Equipe Verde Capital

Correio Braziliense >> 28/04/2014

As vítimas do lixão
Mortes e mutilações são frequentes no depósito de resíduos da Estrutural, onde catadores se arriscam diariamente ao recolher material reciclável. Quem sobrevive aos acidentes reclama da falta de amparo e de assistência por parte do governo

» THALITA LINS
Publicação: 28/04/2014

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Logo que um caminhão de coleta despeja resíduos no Lixão da Estrutural, um aglomerado de pessoas se forma atrás do veículo. Assim que o material vindo de todo o Distrito Federal é largado no chão, mulheres, homens e crianças travam uma briga para recolher garrafas plásticas, latas de alumínio, sucatas e até comida. A cena se repete ao longo do dia na área, aberta 24 horas aos catadores. Além das condições precárias de trabalho, eles assistem a tragédias ou as protagonizam .

Ali, gente morre em meio ao lixo. Somente neste ano, duas pessoas perderam a vida no local, enquanto buscavam tudo o que poderia ser vendido para assegurar o sustento das famílias. Em um dos casos, o corpo de João Paulo Santos Pereira, de 32 anos, foi encontrado em uma das três lagoas de chorume do depósito irregular, provalmente afogado. Quando não têm a vida interrompida, acabam mutilados. Alguns carregam no corpo sequelas irreversíveis, consequência de cortes, acidentes e atropelamentos.

Edilson Gonçalves de Sousa, 39 anos, é uma exceção. Após ter tido dois dedos da mão direita decepados por um caminhão de lixo da Valor Ambiental, há dois anos, o paraense conseguiu receber indenização da empresa. O valor que ganhou na causa — R$ 4 mil — saiu em seis meses. A quantia, porém, não amenizou o sofrimento da vítima. “Foi preciso um ano para os ferimentos sararem. Fiquei três meses encostado no INSS sem poder trabalhar. Continuo com dor. Todos os dias. Não tomo remédio porque, senão, vou viver me medicando”, lamenta o pai de oito filhos.

Amputado, o ex-catador ainda tentou voltar ao lixão e, por pouco, não morreu. “A caçamba de um caminhão soltou e chegou a bater nas minhas costas, mas, não sei como, ela escorregou para a frente e não me pressionou contra o chão. Devem ter sido as mãos de Deus”, arriscou Edilson. Depois disso, ele nunca mais voltou ao local. “É muito perigoso. Já vi muitas pessoas morrendo. Perdi muitos amigos e parentes de amigos. Presenciei a morte de dois homens ao mesmo tempo. Foram esmagados por um veículo”, contou ele, que fazia parte de um grupo de 2,5 mil pessoas que ganhavam a vida recolhendo resíduos no espaço.

No instante em que quase perdeu a vida, o paraense recordou do momento em que tirou a mão direita da luva e sentiu a falta dos dois dedos. “Era meio-dia quando o caminhão chegou ao lixão. Foi despejado o material e, depois, apoiei a minha mão no amortecedor do veículo. O motorista ligou a prensa sem saber que eu estava ali e cortou os meus dedos. Quando puxei, vi muito sangue. Tirei a minha camiseta e enrolei a mão. A dor era insuportável, mas, mesmo assim, consegui manter a calma. No hospital, o médico disse que, se implantasse os dedos cortados, poderia ter risco de rejeição. Então, só foram dados pontos no local do ferimento.”

Edilson recolhia latas de alumínio e garrafas de plástico no Lixão da Estrutural havia 17 anos. Ao ser mutilado, decidiu largar o serviço no local. Hoje, é contratado em uma empresa de limpeza para atuar na área de serviços gerais. Embora esteja convicto de que foi melhor se afastar daquela área, ele diz que ganhava mais recolhendo material reciclável. “Todo dia, tinha dinheiro. Essa era a facilidade do lixão. Por semana, tirava R$ 300. Hoje, recebo R$ 700 por mês, mas sou fichado”, disse.

Mistério

Na última quarta-feira, Edson Santos Pereira, 25 anos, deu adeus ao local onde assistiu à cena mais chocante da vida dele. O ex-catador, que, assim como Edilson, está empregado em uma empresa de limpeza, passou pela última vez em frente a uma das lagoas de chorume do Lixão da Estrutural. Lá, um dos irmãos dele, João Paulo Santos Pereira, 32 anos, foi encontrado morto em fevereiro. “Estava sem vida há pelo menos dois dias”, contou. João Paulo costumava trabalhar à noite, quando recolhia papel. “Ele cresceu no lixão. Vinha desde criança”, afirmou Elderson Santos Pereira, 28 anos, outro irmão.

Até hoje, a tragédia é um mistério. O laudo cadavérico emitido pelo Instituto de Medicina Legal (IML) não aponta as causas da morte da vítimas. A família acredita que João Paulo tenha se afogado no chorume, cuja profundidade é de 15m. “Não há segurança alguma no lixão. Precisava ter uma grade protegendo as lagoas”, defendeu Edson. A família reclama ainda da falta de amparo do Serviço de Limpeza Urbana (SLU), órgão responsável pelo espaço. “Não sabemos quais são os nossos direitos”, resumiu Elderson. João Paulo deixou uma filha de 4 anos.

A exemplo de Edilson e Edson, o hoje servente de obras Valtério Xavier de Matos, 56 anos, também largou o depósito de lixo por causa dos riscos. Em 2010, o goiano de Niquelândia quase perdeu a perna direita. “O acidente arrancou a minha canela. Eu digo que perdi o membro porque o meu pé não funciona mais”, disse. “O médico me orientou a não ir mais lá (no Lixão da Estrutural) porque poderia inflamar o ferimento, que até hoje dói.” Valtério estava de carona, equilibrando-se em um caminhão, quando, para não cair do veículo durante uma manobra, pulou dentro de um buraco.

Sem direitos

Os catadores que trabalham no Lixão da Estrutural não têm vínculo empregatício com o governo, nem sequer a Carteira de Trabalho assinada por qualquer empresa. Em razão disso, a maioria não tem amparo em caso de acidente. Somente aqueles que contribuem ao INSS conseguem auxílio-doença, como Valtério, que há três anos recebe o subsídio. “Os direitos só existem quando existe vínculo e, nesse caso, não há. As pessoas estão ali dentro por iniciativa própria”, explicou o diretor-geral do SLU, Gastão Ramos.

O gestor acrescenta que tanto o órgão quanto a Valor Ambiental, empresa que presta serviço de coleta ao GDF, oferecem ajuda psicológica no momento em que acidentes e mortes acontecem no local. “A firma (Valor Ambiental) é obrigada a oferecer suporte na hora do enterro, por exemplo”, afirmou Gastão.

Edilson e Valtério são a favor da desativação do Lixão da Estrutural. O posicionamento de ambos se baseia nos episódios que os privaram de trabalhar e os deixaram com cicatrizes no corpo. O diretor-geral do SLU enxerga o fechamento do lixão como única saída para o fim de mortes, ferimentos e mutilações. “Estamos na batalha para fechá-lo e evitar isso. Não foi apenas uma vida que perdemos. Além disso, temos de dar dignidade a essas pessoas”, encerrou Gastão.

Com o fim desse espaço, todo o lixo da capital federal será levado para um aterro sanitário, em Samambaia. As obras do novo depósito, no entanto, estão embargadas pelo Tribunal de Contas (TCDF) há cerca de 15 dias. A empresa contratada para o projeto não teria cumprindo um dos itens propostos pelo edital de licitação.

Triagem
A previsão era de que o aterro fosse entregue até maio. Com essa interrupção, a finalização do espaço poderá ser adiada. Até a metade do ano, devem ser erguidos 12 centros de triagem para os catadores de lixo.

Para ler a matéria no CB, clique aqui.

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